LHS 1140 b: o planeta que tem 1,73 vez o raio da Terra e pode esconder um oceano gigantesco
A cerca de 49 anos-luz, LHS 1140 b é uma super-Terra localizada na zona habitável de uma estrela anã vermelha. Novas medições indicam que ele pode conter entre 9% e 19% de sua massa em água — uma quantidade extraordinária quando comparada à Terra — e observações do James Webb estão ajudando a revelar se esse mundo realmente possui uma atmosfera capaz de sustentar água líquida
Imagine olhar para a Terra do espaço e aumentar seu raio em quase três quartos.
Agora imagine que, em vez de continentes dominando boa parte da superfície, esse mundo pudesse ter enormes quantidades de água e gelo.
Esse planeta não está no Sistema Solar.
Ele está a aproximadamente 49 anos-luz da Terra, na constelação de Cetus, e recebeu o nome de LHS 1140 b.
Descoberto em 2017, o exoplaneta inicialmente parecia ser apenas mais uma super-Terra interessante. Com o avanço das observações, porém, sua história ficou muito mais intrigante.
Hoje, LHS 1140 b é estudado como um possível mundo oceânico, localizado em uma região onde as condições poderiam permitir a existência de água líquida.
E há um detalhe que torna tudo ainda mais impressionante:
os modelos indicam que entre 9% e 19% da massa do planeta pode ser composta por água.
Para entender o tamanho dessa possibilidade, a Terra possui apenas uma pequena fração de sua massa na forma de água. Se essas estimativas para LHS 1140 b estiverem corretas, a quantidade de água em relação à massa total do planeta seria centenas de vezes maior que a proporção encontrada na Terra.
Isso não significa que os astrônomos tenham observado um oceano diretamente.
Mas significa que LHS 1140 b reúne características que fazem dele um dos alvos mais interessantes da atual busca por mundos potencialmente habitáveis.
Afinal, quanto maior que a Terra é LHS 1140 b?
Essa é uma das informações mais importantes para entender o planeta.
LHS 1140 b possui aproximadamente 1,73 vez o raio da Terra.
Isso significa que seu raio é cerca de 73% maior que o terrestre.
Como o diâmetro também é proporcional ao raio, seu diâmetro é aproximadamente 1,73 vez o da Terra.
A Terra tem cerca de 12.742 quilômetros de diâmetro.
Por essa proporção, LHS 1140 b teria um diâmetro aproximado de 22.000 quilômetros.
Ou seja, se fosse possível colocar os dois mundos lado a lado em uma comparação de tamanho, a Terra pareceria claramente menor.
Mas existe uma diferença ainda mais interessante.
Como o volume cresce com o cubo do raio, um planeta com 1,73 vez o raio da Terra teria aproximadamente 5,2 vezes o volume terrestre.
Isso não significa que ele tenha 5,2 vezes a massa.
A massa estimada atualmente é de aproximadamente 5,6 vezes a massa da Terra. Estudos recentes obtiveram 5,60 ± 0,19 massas terrestres e um raio de 1,730 ± 0,025 raios terrestres.
É justamente essa combinação entre tamanho e massa que fornece pistas sobre sua composição interna.
Uma comparação rápida entre LHS 1140 b e a Terra
Para visualizar melhor:
Terra
Raio: aproximadamente 6.371 km
Diâmetro: aproximadamente 12.742 km
Massa: 1 massa terrestre
Volume: 1 volume terrestre
Água: uma pequena fração da massa total
Ano: 365 dias
LHS 1140 b
Raio: aproximadamente 1,73 vez o da Terra
Diâmetro: aproximadamente 22.000 km
Massa: aproximadamente 5,6 vezes a da Terra
Volume: aproximadamente 5,2 vezes o da Terra
Ano: aproximadamente 24,7 dias
Água: modelos indicam potencialmente 9% a 19% da massa
Os números ajudam a perceber que não estamos falando de uma “Terra um pouco maior”.
É um mundo consideravelmente diferente.
O que significa ser uma super-Terra?
O nome pode enganar.
“Super-Terra” não significa necessariamente que o planeta seja uma versão melhor da Terra.
Também não significa que seja habitável.
O termo é usado para classificar planetas que possuem massa e tamanho superiores aos da Terra, mas que ainda não chegam às dimensões dos gigantes do Sistema Solar.
LHS 1140 b é um exemplo particularmente interessante porque suas características físicas não parecem se encaixar perfeitamente na ideia de uma super-Terra rochosa convencional.
A densidade média estimada é de aproximadamente 5,9 g/cm³, próxima da densidade média terrestre, mas as medições de massa, raio e composição levantaram dúvidas importantes sobre sua estrutura interna.
E é justamente aí que começa o mistério.
Por que a densidade é tão importante?
Imagine dois planetas exatamente do mesmo tamanho.
Um deles é formado quase inteiramente por rochas e metais.
O outro possui uma enorme quantidade de água e gelo.
Eles podem ter volumes semelhantes, mas o segundo terá uma composição diferente e, dependendo da estrutura interna, poderá apresentar uma densidade menor.
Os astrônomos conseguem estimar a massa de um exoplaneta observando como sua gravidade influencia sua estrela.
Também conseguem determinar seu tamanho quando o planeta passa na frente da estrela e bloqueia uma pequena parte da luz.
Com massa e raio, é possível estimar a densidade.
No caso de LHS 1140 b, as medições mais recentes deixaram uma questão importante:
ele é uma super-Terra rochosa ou um mundo rico em água?
Os modelos atuais favorecem cenários muito mais interessantes do que se imaginava originalmente.
A hipótese que mudou tudo: até 19% do planeta pode ser água
Estudos publicados nos últimos anos indicaram dois cenários principais para explicar as características de LHS 1140 b.
Um deles seria um planeta com uma pequena camada atmosférica rica em hidrogênio.
O outro seria um mundo extremamente rico em água, com uma fração estimada entre 9% e 19% da massa total composta por água, dependendo do modelo utilizado.
Essa estimativa é extraordinária.
Considerando uma massa de aproximadamente 5,6 vezes a da Terra, 9% corresponderia a cerca de 0,5 massa terrestre em água.
No limite superior de 19%, seriam aproximadamente 1,06 massas terrestres em água.
Ou seja, em determinados modelos, a quantidade total de água de LHS 1140 b poderia chegar a algo comparável à própria massa da Terra.
Mas é preciso fazer uma ressalva fundamental:
água não significa necessariamente oceanos líquidos.
Essa água pode existir em diferentes formas, incluindo gelo, água em camadas profundas e possivelmente água líquida em determinadas regiões.
A estimativa é uma característica dos modelos de composição interna, não uma observação direta da superfície.
Quanto isso representa em comparação com a Terra?
Aqui está uma das comparações mais impressionantes.
A Terra possui uma enorme quantidade de água em termos absolutos, mas a massa total dos oceanos representa apenas cerca de 0,02% da massa do planeta.
Já os modelos para LHS 1140 b trabalham com algo entre 9% e 19% de água em massa.
Isso significa que a proporção de água poderia ser aproximadamente 400 a 800 vezes maior que a proporção de água existente na Terra, dependendo do cenário considerado.
É por isso que os pesquisadores utilizam a expressão “water world”, ou mundo aquático.
Mas esse termo não deve ser interpretado como uma confirmação de que toda a superfície seja um oceano azul semelhante aos oceanos terrestres.
A estrutura real ainda é desconhecida.
LHS 1140 b está na zona habitável
Outro fator importante é sua localização.
LHS 1140 b orbita sua estrela a aproximadamente 0,095 unidade astronômica, uma distância muito menor que a distância entre a Terra e o Sol.
Isso pode parecer estranho.
Como um planeta tão próximo de sua estrela poderia ser potencialmente habitável?
Porque sua estrela é muito menor e menos luminosa que o Sol.
LHS 1140 é uma anã vermelha do tipo M, uma estrela muito mais fria e fraca que o nosso Sol.
Assim, mesmo estando muito mais perto da estrela, LHS 1140 b recebe apenas aproximadamente 43% da energia que a Terra recebe do Sol.
Essa característica coloca o planeta em uma região compatível com a chamada zona habitável.
O que é a zona habitável?
A zona habitável é uma região ao redor de uma estrela na qual, sob determinadas condições atmosféricas, um planeta poderia manter água líquida em sua superfície.
É importante entender o “poderia”.
Estar na zona habitável não significa que um planeta tenha água.
Também não significa que tenha atmosfera.
Muito menos significa que exista vida.
É apenas uma das condições que tornam um mundo particularmente interessante para a astrobiologia.
Um planeta fora da zona habitável pode ser frio demais ou quente demais para manter água líquida na superfície.
Dentro dela, entretanto, a combinação entre atmosfera, composição, pressão, atividade estelar e características geológicas pode permitir condições muito diferentes.
Qual é a temperatura de LHS 1140 b?
A temperatura de equilíbrio estimada atualmente é de aproximadamente 226 kelvin, ou cerca de -47 °C.
Isso parece extremamente frio.
E seria, se estivéssemos falando diretamente da temperatura de uma superfície sem atmosfera.
Mas a temperatura de equilíbrio não é necessariamente a temperatura real da superfície.
A atmosfera pode alterar profundamente o clima.
Um forte efeito estufa pode elevar a temperatura superficial.
Uma atmosfera também pode transportar calor do lado iluminado para o lado escuro do planeta.
Por isso, a temperatura de equilíbrio é apenas uma referência física, não uma previsão simples de como seria caminhar sobre o planeta.
Um planeta com dois lados completamente diferentes?
Existe uma possibilidade fascinante.
Como LHS 1140 b está muito próximo de sua estrela, ele pode ter ficado gravitacionalmente travado, ou seja, com a mesma face permanentemente voltada para a estrela.
Se isso acontecer, um hemisfério teria dia permanente e o outro teria noite permanente.
Mas isso não necessariamente significa que um lado seja infernalmente quente e o outro absolutamente congelado.
Uma atmosfera suficientemente espessa poderia transportar calor entre as regiões.
E modelos climáticos indicam que poderia existir uma região relativamente aquecida onde a água permaneceria líquida, enquanto áreas mais distantes permaneceriam cobertas de gelo.
É daí que surgiu a comparação com um “mundo globo ocular”.
O que seria um mundo “globo ocular”?
Imagine observar o planeta de longe.
Grande parte dele poderia ser coberta por gelo.
No hemisfério voltado para a estrela, porém, existiria uma região mais quente e escura que poderia conter água líquida.
Visualmente, isso poderia lembrar a íris de um olho gigantesco cercado por uma superfície congelada.
É apenas uma representação conceitual.
Não significa que os astrônomos tenham visto essa paisagem.
Os modelos climáticos apenas mostram que determinadas combinações de atmosfera e água podem permitir esse tipo de configuração.
O James Webb pode descobrir se existe atmosfera?
Essa é uma das razões pelas quais LHS 1140 b se tornou tão importante.
O planeta passa diretamente entre sua estrela e a Terra.
Esse fenômeno é chamado de trânsito.
Durante o trânsito, uma pequena quantidade da luz da estrela passa pela atmosfera do planeta antes de chegar aos telescópios.
Essa luz pode carregar informações sobre as moléculas presentes.
É como se a atmosfera deixasse uma impressão digital na luz da estrela.
O James Webb consegue analisar essa assinatura em diferentes comprimentos de onda.
O que o James Webb já descobriu?
As observações do James Webb foram particularmente importantes para eliminar uma possibilidade.
Os cientistas analisaram a hipótese de que LHS 1140 b tivesse uma atmosfera dominada por hidrogênio, característica que poderia fazê-lo parecer mais parecido com um mini-Netuno.
Os dados não favoreceram esse cenário.
Um estudo utilizando o instrumento NIRISS concluiu que atmosferas ricas em hidrogênio avaliadas nos modelos eram fortemente desfavorecidas.
Em vez disso, os dados apresentaram sinais tentativos compatíveis com uma atmosfera de maior peso molecular, possivelmente dominada por nitrogênio.
Outro estudo utilizando o NIRSpec também encontrou incompatibilidade com atmosferas ricas em hidrogênio e favoreceu o cenário de um mundo rico em água com uma atmosfera mais pesada.
Mas existe uma palavra essencial aqui:
tentativo.
A atmosfera ainda não foi caracterizada com a mesma certeza que temos sobre a atmosfera terrestre.
O que pode existir nessa atmosfera?
Uma das possibilidades estudadas é uma atmosfera rica em nitrogênio, potencialmente acompanhada de vapor de água e dióxido de carbono.
Isso seria especialmente interessante porque o nitrogênio é o principal componente da atmosfera da Terra.
Mas não devemos concluir que LHS 1140 b possui uma atmosfera “igual à nossa”.
Mesmo que o nitrogênio seja confirmado, a pressão, a quantidade de CO₂, o vapor de água e outros componentes podem ser completamente diferentes.
Uma atmosfera alienígena pode compartilhar alguns ingredientes com a terrestre e ainda assim produzir um planeta radicalmente diferente.
E se existir dióxido de carbono?
O dióxido de carbono pode ser extremamente importante para o clima.
Na Terra, o CO₂ participa do efeito estufa e influencia o equilíbrio térmico do planeta.
Em LHS 1140 b, uma determinada quantidade de CO₂ poderia ajudar a manter temperaturas compatíveis com água líquida em regiões onde, sem esse efeito, a água permaneceria congelada.
Por isso, futuras observações tentando identificar e medir CO₂ podem ajudar a responder uma questão fundamental:
LHS 1140 b realmente consegue manter água líquida em sua superfície?
O James Webb encontrou água?
Ainda é preciso ter cuidado com essa afirmação.
Os dados são compatíveis com modelos que incluem vapor de água e uma atmosfera de moléculas pesadas.
Mas isso não significa que o James Webb tenha fotografado oceanos.
Também não significa que a presença de água líquida esteja comprovada.
Na astronomia de exoplanetas, os pesquisadores trabalham com sinais extremamente pequenos e precisam considerar várias possibilidades antes de transformar uma interpretação em uma descoberta consolidada.
No caso de LHS 1140 b, o cenário de um mundo rico em água se tornou especialmente forte justamente porque as observações ajudaram a enfraquecer a hipótese de uma atmosfera leve dominada por hidrogênio.
Existe realmente um oceano em LHS 1140 b?
Ainda não sabemos.
Essa é provavelmente a informação mais importante para evitar exageros.
Não existe uma fotografia mostrando oceanos.
Não existe uma observação direta da superfície.
Não existe confirmação de que a água esteja predominantemente em estado líquido.
O que existe é um conjunto de medições que permite construir modelos.
E esses modelos mostram que um mundo rico em água é uma possibilidade extremamente interessante.
Por que a possibilidade de água líquida é tão importante?
Porque toda a vida que conhecemos depende da água líquida.
A água permite que moléculas interajam, participa de reações químicas e cria um ambiente no qual processos biológicos podem ocorrer.
Isso não prova que a vida extraterrestre precise necessariamente de água.
Talvez existam formas de vida completamente diferentes das que conhecemos.
Mas, como a única vida conhecida no Universo está na Terra, a água líquida é um dos principais indicadores procurados pelos cientistas.
Por isso, um planeta potencialmente rico em água localizado na zona habitável merece tanta atenção.
LHS 1140 b pode ter vida?
Até agora, não existe evidência confirmada de vida em LHS 1140 b.
Essa afirmação precisa permanecer clara.
Os cientistas não descobriram organismos.
Não detectaram uma civilização.
Não encontraram uma bioassinatura confirmada.
O que encontraram são características que tornam o planeta interessante para a busca por condições potencialmente habitáveis.
E isso já é cientificamente extraordinário.
O que seria uma bioassinatura?
Uma bioassinatura é um possível sinal de atividade biológica.
Pode ser uma combinação específica de gases na atmosfera ou outra característica que seja difícil de explicar apenas por processos geológicos ou químicos.
Mas existe um problema.
A natureza é capaz de produzir muitos sinais que podem parecer biológicos.
Por isso, uma única molécula não seria suficiente para anunciar a descoberta de vida.
Os pesquisadores precisariam observar diferentes sinais e eliminar explicações não biológicas.
O oxigênio seria uma prova de vida?
Não necessariamente.
Na Terra, a maior parte do oxigênio atmosférico está relacionada a processos biológicos, especialmente à fotossíntese.
Mas existem mecanismos não biológicos capazes de produzir oxigênio.
Portanto, mesmo que algum dia um telescópio detecte oxigênio em um exoplaneta, os cientistas precisarão analisar o contexto.
A busca por vida é muito mais complexa do que encontrar uma única molécula.
A estrela de LHS 1140 é um problema?
Pode ser.
Estrelas anãs vermelhas são muito comuns na Via Láctea e possuem uma vantagem importante para os astrônomos: são pequenas.
Quando um planeta passa na frente de uma estrela pequena, o bloqueio relativo de luz pode ser mais fácil de detectar.
Isso torna alguns exoplanetas ao redor dessas estrelas bons alvos para estudos atmosféricos.
Mas anãs vermelhas também podem apresentar atividade estelar e radiação capazes de afetar atmosferas planetárias.
Por isso, estudar a estrela é tão importante quanto estudar o planeta.
Quanto tempo dura um ano nesse planeta?
Apenas 24,7 dias terrestres.
Enquanto a Terra precisa de 365 dias para completar uma órbita ao redor do Sol, LHS 1140 b completa uma volta em menos de 25 dias.
Isso acontece porque ele está muito próximo de sua estrela.
Seu período orbital curto é uma das características que facilitam a observação de múltiplos trânsitos.
Quanto mais vezes o planeta passa diante da estrela, mais dados os telescópios podem acumular.
A gravidade seria maior que na Terra?
Sim.
Usando a massa de aproximadamente 5,6 Terras e o raio de 1,73 Terra, a gravidade superficial estimada seria de aproximadamente 1,87 vez a gravidade terrestre, assumindo uma distribuição convencional da massa.
Na prática, uma pessoa de 70 kg na Terra teria o mesmo peso gravitacional equivalente a cerca de 131 kg nesse planeta.
Isso não significa que sua massa mudaria.
A pessoa continuaria tendo 70 kg de massa.
O que mudaria seria a força com que o planeta a puxaria para sua superfície.
Essa gravidade maior também é importante para a atmosfera, pois um planeta com gravidade mais forte pode ter maior capacidade de reter gases.
Seria possível caminhar em LHS 1140 b?
Em princípio, se existisse uma superfície sólida acessível, a gravidade seria significativamente maior que a da Terra.
Mas existe um grande “se”.
Se o planeta for realmente um mundo muito rico em água, pode haver enormes camadas de gelo e água sobre uma estrutura rochosa profunda.
Não sabemos se existiriam continentes semelhantes aos terrestres.
Não sabemos qual seria a pressão atmosférica.
Não sabemos qual seria a composição da superfície.
Portanto, imaginar uma pessoa caminhando sobre uma praia de LHS 1140 b é apenas uma representação artística.
O planeta é maior, mas não é um gigante gasoso
LHS 1140 b está muito longe das dimensões de Júpiter ou Saturno.
Seu raio é apenas 1,73 vez o terrestre.
Isso é pequeno em comparação com os gigantes do Sistema Solar.
Por outro lado, sua massa é significativamente maior que a da Terra.
Essa combinação coloca o planeta em uma região particularmente interessante da população de exoplanetas.
Ele está justamente em uma faixa em que os astrônomos tentam compreender como mundos pequenos evoluem e por que alguns mantêm atmosferas leves enquanto outros podem se tornar ricos em água.
Quando LHS 1140 b foi descoberto?
A descoberta foi anunciada em 2017 pelo projeto MEarth.
Naquele momento, o planeta já era considerado interessante por estar na zona habitável de uma estrela relativamente próxima.
Mas as primeiras estimativas não contavam toda a história.
Com novas observações, especialmente medições mais precisas da massa e do raio, a compreensão do planeta mudou.
A massa atualmente utilizada em estudos recentes é de aproximadamente 5,60 massas terrestres, enquanto o raio é de aproximadamente 1,73 raio terrestre.
Essa revisão foi fundamental para o surgimento da hipótese do mundo oceânico.
O que os cientistas pensavam antes?
Inicialmente, LHS 1140 b foi interpretado como um planeta potencialmente rochoso e relativamente denso.
As novas medições, porém, indicaram uma estrutura menos compatível com uma super-Terra rochosa simples.
Isso abriu duas possibilidades principais:
um planeta com uma pequena atmosfera rica em hidrogênio ou um planeta com uma grande quantidade de água.
As observações do James Webb passaram então a ter uma importância enorme.
O que ainda falta descobrir?
Apesar de todo o interesse, ainda existem perguntas fundamentais.
Os cientistas precisam descobrir com maior precisão:
- se LHS 1140 b possui atmosfera;
- qual é sua pressão atmosférica;
- quanto nitrogênio existe;
- quanto dióxido de carbono existe;
- quanto vapor de água existe;
- se há nuvens;
- se há gelo na superfície;
- se existe água líquida;
- como o calor é distribuído;
- se o planeta possui continentes;
- como sua atmosfera evoluiu;
- como a atividade da estrela afetou o planeta;
- e se algum sinal químico poderia ser associado a processos biológicos.
Cada uma dessas respostas pode alterar nossa compreensão sobre o planeta.
O James Webb consegue encontrar vida em LHS 1140 b?
Essa é uma questão mais complicada do que parece.
O James Webb é extremamente poderoso, mas não consegue simplesmente olhar para LHS 1140 b e identificar árvores, animais, oceanos ou cidades.
O planeta está a dezenas de anos-luz.
O que o telescópio consegue estudar é principalmente a luz associada ao sistema.
A partir dela, os astrônomos procuram informações sobre a atmosfera.
E mesmo isso é extremamente difícil.
A NASA explica que identificar uma atmosfera em mundos pequenos já é um desafio enorme e que procurar bioassinaturas é ainda mais complicado. Para LHS 1140 b, estudos indicam que dezenas de trânsitos poderiam ser necessários para tentar detectar determinadas bioassinaturas em condições ideais.
Por que cada trânsito é tão importante?
Durante um trânsito, LHS 1140 b passa diante de sua estrela.
A luz da estrela diminui ligeiramente.
Ao mesmo tempo, uma pequena parte dessa luz atravessa a atmosfera do planeta.
O telescópio registra o espectro dessa luz.
Ao repetir o processo muitas vezes, os pesquisadores podem aumentar a qualidade do sinal.
É como tentar ouvir uma conversa muito distante em meio a um ambiente barulhento.
Uma observação pode não ser suficiente.
Dezenas de observações podem revelar padrões.
O que pode acontecer nas próximas pesquisas?
As próximas observações podem ajudar a distinguir entre diferentes modelos atmosféricos.
Se determinados sinais forem confirmados, os pesquisadores poderão estimar melhor a composição da atmosfera.
Se outros sinais desaparecerem com observações adicionais, alguns modelos poderão ser descartados.
Essa é uma das características mais interessantes da ciência dos exoplanetas.
O objetivo não é simplesmente confirmar uma história fascinante.
É descobrir qual história os dados realmente sustentam.
LHS 1140 b é uma segunda Terra?
Não.
E provavelmente essa não é a melhor maneira de descrevê-lo.
A Terra possui continentes, oceanos, uma atmosfera rica em nitrogênio e oxigênio, campo magnético, uma biosfera conhecida e uma história geológica específica.
Nada disso foi demonstrado em LHS 1140 b.
O que os dois mundos podem ter em comum é a possibilidade de água líquida em determinadas condições.
E isso já é suficiente para torná-los objetos de enorme interesse científico.
E se LHS 1140 b for realmente um mundo oceânico?
A descoberta teria implicações importantes.
Significaria que mundos com grandes quantidades de água podem existir em regiões temperadas ao redor de estrelas pequenas.
Também ajudaria os cientistas a entender melhor como planetas ricos em água se formam.
E poderia ampliar a definição do que procuramos quando falamos em mundos habitáveis.
Talvez uma “Terra 2.0” não precise ser parecida com a Terra.
Talvez existam vários tipos de mundos capazes de apresentar ambientes favoráveis à química da vida.
E se não houver água líquida?
Mesmo assim, LHS 1140 b continuaria sendo extremamente importante.
Se as observações demonstrarem que o planeta possui uma atmosfera inadequada ou que a água está presa em formas inacessíveis, isso também seria uma descoberta.
A ciência não avança apenas quando encontra aquilo que esperava.
Descobrir que determinado planeta não é habitável também ajuda a entender quais condições realmente são necessárias para a vida.
A verdadeira importância de LHS 1140 b
Talvez o aspecto mais interessante desse planeta não seja a possibilidade de encontrarmos alienígenas.
É a oportunidade de estudar, a aproximadamente 49 anos-luz daqui, um mundo que pode representar uma categoria completamente diferente de planeta.
Um planeta:
1,73 vez maior em raio que a Terra.
Cerca de 5,6 vezes mais massivo.
Com aproximadamente 5,2 vezes o volume terrestre.
Com gravidade superficial estimada em cerca de 1,9 vez a da Terra.
Que recebe aproximadamente 43% da energia que nosso planeta recebe do Sol.
Que completa uma órbita em apenas 24,7 dias.
E que, em determinados modelos, pode conter entre 9% e 19% de sua massa em água.
Esses números ajudam a entender por que LHS 1140 b despertou tanto interesse.
Um planeta com até uma massa terrestre de água?
Essa talvez seja a comparação mais impressionante.
Se a estimativa máxima de 19% de água estiver próxima da realidade, LHS 1140 b poderia conter uma quantidade de água equivalente a mais de uma massa terrestre.
Isso não significa que exista um oceano com exatamente a massa da Terra.
Parte dessa água poderia estar congelada ou em camadas profundas submetidas a pressões enormes.
Mas a simples possibilidade mostra como esse mundo pode ser diferente do nosso.
Na Terra, a água está principalmente nos oceanos, geleiras, águas subterrâneas, atmosfera e outros reservatórios.
Em um mundo aquático, a distribuição poderia ser completamente diferente.
O planeta poderia ser habitável e ainda assim ser muito diferente da Terra
Essa é uma das lições mais importantes de LHS 1140 b.
Durante décadas, a busca por vida fora da Terra esteve muito associada à procura de planetas semelhantes ao nosso.
Mas os exoplanetas estão mostrando que o Universo pode produzir uma variedade enorme de mundos.
Alguns podem ser secos.
Outros podem ser cobertos de gelo.
Alguns podem ter oceanos globais.
Outros podem possuir atmosferas espessas.
E alguns podem reunir condições intermediárias.
LHS 1140 b pode ajudar a descobrir onde exatamente se encaixa essa diversidade.
A grande pergunta continua sem resposta
LHS 1140 b é fascinante, mas ainda é um planeta cheio de incógnitas.
Não sabemos com certeza como é sua superfície.
Não sabemos se seus oceanos existem.
Não sabemos quanto de sua água está em estado líquido.
Não sabemos se sua atmosfera é estável.
Não sabemos se existe qualquer processo biológico acontecendo ali.
E não sabemos se algum dia encontraremos uma bioassinatura convincente.
Mas sabemos algo importante.
Encontramos um mundo muito maior que a Terra, localizado na zona habitável de uma estrela relativamente próxima, cuja composição pode incluir uma quantidade extraordinária de água e cuja atmosfera está começando a ser investigada diretamente por uma das ferramentas mais poderosas já construídas pela humanidade.
O James Webb já ajudou a descartar alguns dos cenários mais simples para explicar o planeta e tornou ainda mais interessante a hipótese de um mundo rico em água com uma atmosfera de moléculas pesadas.
Agora, cada nova observação pode aproximar os cientistas de uma resposta.
LHS 1140 b pode ser apenas um mundo gelado e estranho.
Pode ser um planeta oceânico.
Pode possuir regiões de água líquida.
E, em um cenário ainda mais extraordinário, pode apresentar alguma química que indique condições favoráveis à vida.
Por enquanto, não sabemos.
E talvez seja justamente essa a parte mais fascinante.
A aproximadamente 49 anos-luz da Terra, existe um mundo 73% maior em raio que o nosso, com cerca de 5,6 vezes sua massa, que pode carregar em sua estrutura uma quantidade de água inimaginável para os padrões terrestres.
Talvez LHS 1140 b seja apenas mais um planeta entre bilhões.
Ou talvez seja um dos mundos que, no futuro, ajudarão a responder uma das perguntas mais antigas da humanidade:
A vida surgiu apenas aqui ou o Universo também encontrou outros lugares onde ela pudesse existir?